O Ministério Público da Bahia (MP-BA) decidiu prorrogar até maio de 2027 o prazo para concluir o inquérito civil que apura óbitos fetais e neonatais ocorridos na Maternidade Albert Sabin, unidade estadual localizada no bairro de Cajazeiras, em Salvador. A prorrogação foi assinada pelo 2º Promotor de Justiça da Promotoria de Saúde da capital.
O objetivo da investigação, conduzida na esfera cível transindividual, é apurar as causas por trás das mortes registradas na unidade, cruzando os dados dos óbitos com parâmetros técnicos reconhecidos pela literatura médica internacional. A partir desse cruzamento, o MP-BA vai avaliar se os processos internos de atendimento e a estrutura física do hospital precisam ser reajustados.
Por se tratar de investigação transindividual, o órgão não busca apontar responsáveis por casos isolados, e sim identificar falhas coletivas na gestão da maternidade, de modo a evitar que novos episódios se repitam com futuras gestantes e recém-nascidos.
Referência estadual em atendimento obstétrico e neonatal, a Maternidade Albert Sabin acumula, nos últimos anos, denúncias graves de negligência médica e violência obstétrica. O inquérito foi aberto em 2023, mesmo ano em que uma vistoria do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) flagrou superlotação severa na unidade — a fiscalização encontrou 18 pacientes, entre 12 mulheres e 6 recém-nascidos, acomodados de forma improvisada pelos corredores.
Desde então, novos casos têm reforçado o histórico de denúncias. No fim de 2025, a Polícia Civil abriu investigação após um bebê sofrer fratura no braço durante o parto: familiares relataram que a equipe médica ignorou a indicação de cesárea — recomendada por causa de um quadro de diabetes gestacional da mãe — e manteve o parto normal, resultando em asfixia perinatal, necessidade de reanimação e lesão no plexo braquial direito do recém-nascido.
Casos parecidos já haviam sido registrados em março de 2023: o bebê Arthur teve o braço fraturado durante uma manobra malsucedida para retirar o cordão umbilical do pescoço, e, no mesmo mês, outra família denunciou fratura na clavícula de um recém-nascido durante o parto. Em ambos os casos, os pais relataram ausência total de suporte ou orientação da equipe do hospital.
O histórico da unidade também inclui relatos de óbitos considerados evitáveis. Em 2023, a gestante Aila Noronha foi mandada de volta para casa quatro vezes seguidas após iniciar o trabalho de parto, mesmo relatando dores intensas; quando finalmente foi internada, ficou sem assistência durante a troca de plantão da equipe médica, o que resultou na morte do bebê ainda no útero. Já em 2024, a gestante Liliane Ribeiro afirmou ter perdido a filha após a equipe de plantão desconsiderar a indicação de parto cesáreo e, durante indução forçada do parto normal, realizar uma manobra invasiva que perfurou o pescoço do bebê com a unha da médica.
Procurada, a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), responsável pela gestão da maternidade, não respondeu até o fechamento desta matéria.
Matéria original: bahianoticias.com.br — Data de publicação original: 17 de julho de 2026.