Uma rajada de perfume, o cheiro de terra molhada antes da chuva, o aroma de pão recém-assado. Em uma fração de segundo, a mente pode ser levada para uma cena da infância ou para uma conversa antiga. Esse fenômeno, a memória olfativa, tem explicação na anatomia do sistema nervoso.
Ao contrário da visão e da audição, cujos sinais passam primeiro pelo tálamo para triagem e análise racional, o olfato acessa diretamente as estruturas ligadas às emoções.
Segundo o neurologista e psicanalista Sérgio Spritzer, criador do Campo de Ciências da Interação Humana, em Porto Alegre, as células receptoras do nariz se conectam ao bulbo olfatório, na base do cérebro, e seguem direto para a amígdala e o hipocampo. “O olfato é o único sentido que não faz esse desvio pelo tálamo. É por isso que o cheiro chega antes da palavra: a pessoa sente primeiro e só depois consegue dizer o que é”, explica.
O especialista aponta que o estímulo olfativo raramente resgata um fato isolado: em geral recupera um contexto inteiro, com pessoas e lugares. “O cheiro nos põe de volta numa relação”, diz. “Quando um cheiro se liga pela primeira vez a uma pessoa ou a um lugar, essa ligação fica muito difícil de ser sobrescrita pelas seguintes. A memória olfativa resiste à interferência muito mais do que as outras, e é por isso que o cheiro da casa da avó continua reconhecível cinquenta anos depois.”
Mesmo em quadros graves de perda cognitiva essa via pode continuar preservada, e testes e estímulos olfativos vêm sendo estudados na medicina diagnóstica e terapêutica. Segundo Spritzer, cheiros familiares conseguem evocar memórias autobiográficas e melhorar o humor em pacientes com Alzheimer que já não respondem a fotografias.