Ela sA? queria ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasceu. O a�?Rap da Felicidadea�?, enfim, se materializou nesta segunda-feira na vida de Rafaela Silva. A campeA? olA�mpica na Rio 2016 fez a Cidade de Deus invadir o asfalto para fazer a festa na favela e cantar o orgulho pelo ouro e pela origem da judoca. Rafaela voltou para o lugar de onde saiu e onde milhares de crianA�as esperam por incentivo para seguir o mesmo caminho e escapar da violA?ncia.
– Importante passar esperanA�a para as crianA�as. JA? estive nesse lado. De querer ter um espelho. Estar perto de um A�dolo. Ver na televisA?o A� diferente de segurar no quimono. NA?o tive essa oportunidade – exemplificou Rafaela, ao comentar a visita A� comunidade.
Em cima de um carro do bombeiro, com medalha no peito e bandeira do Brasil, Rafaela foi ovacionada. A sirene e a gritaria na rua assustaram alguns moradores desavisados. De becos e vielas comeA�aram a aparecer olhares curiosos, que se transformaram em sorrisos orgulhosos. Era dia de celebrar uma filha da Cidade de Deus.
– Aqui tem talento de todo tipo, do esporte, da arte – lembrava o funkeiro Doca, que cantava o a�?rap da felicidadea�? com o parceiro Cidinho, e prestigiou a homenagem, que teve direito a fogos de artifA�cio e muita mA?sica.
Celulares eram sacados aos montes para fotografar a campeA?. Das janelas de apartamentos e carros e das calA�adas e lojas, que mais cedo haviam fechado as portas por conta de uma troca de tiros. Rafaela posava com a medalha na frente. A comunidade estava blindada pelo ouro da campeA?. Mesmo a regiA?o do CaratA?, a mais perigosa, o judA? pacificou. Os fogos, dessa vez, anunciavam a medalhista olA�mpica.
– Depois de 19 anos de trabalho, tenho esse reconhecimento. Antes eu era reconhecida uma vez por mA?s, agora A� o tempo todo. Tenho 24 anos e todos os tA�tulos que um atleta pode ter – comemorou a campeA? olA�mpica e mundial, agora ao lado dos seus de verdade, reconhecida por qualquer vizinho.
VA?rios comentavam informalmente que a visita ao local de origem valorizaria a comunidade e incentivaria as novas geraA�A�es. Um rapaz mostrou mistura de orgulho e revolta ao dizer: “Isso aqui A� favela, mas os polA�ticos nA?o investema�?.
Rafaela provou que a Cidade de Deus A� o maior barato, como diz um outro funk. Na camisa que vestiu no fim da carreata, o desejo era o mesmo cantado por crianA�as que a seguiram por quilA?metros: a�?Eu sA? quero A� ser feliza�?.
Ao terminar o trajeto no endereA�o onde morava, na Rua JessA�, passou o filme na cabeA�a da A�poca que ajudava os pais na loja carregando butijA?o de gA?s. E das brincadeiras de pipa e bola que lhe deram forA�a para se tornar atleta.
– A gente aprende algumas coisas na rua, no dia a dia, e consegui passar isso para o esporte. Uma medalha olA�mpica A� importante, mas uma da comunidade, da minha casa, nA?o tem explicaA�A?o a�� resumiu Rafaela.
Bandidos abaixam armas
Rafaela Silva viveu tarde de pacificadora na visita A� comunidade para retribuir o carinho depois de conquistar uma medalha de ouro na OlimpA�ada no Rio. Bandidos armados que marcavam territA?rio em becos e esquinas da favela guardaram pistolas se fuzis quando a carreata com a atleta passou pelo local seguida por centenas de crianA�as. O inA�cio na Igreja Maranatha teve a presenA�a de atletas do projeto a�?Lutadores de Cristoa�? comandando a cantoria em direA�A?o A� Rua JessA�, onde Rafaela passou a infA?ncia. No trajeto, porA�m, os moradores comeA�aram a alertar que havia homens armados adiante. Bandidos comeA�aram a rondar a carreata de motos e alertar para que nA?o fossem feitas fotos e vA�deos em determinadas ruas. Mesmo assim, A� medida que Rafaela chegava, crianA�as deixavam suas casas e tudo era tomado por correria e alegria. As armas foram guardadas ou escondidas em algumas bocas de fumo.
– A comunidade sempre foi estigmatizada pela violA?ncia. A medalha acende uma esperanA�a de mudar isso -, disse o DJ TR, que organizou a homenagem com o amigo Bruno Rafael.
Na A?rea do CaratA?, a carreata foi interrompida atA� que um motoboy foi atA� os bandidos avisar que ela passaria por eles, e que as armas precisavam ser guardadas. Os traficantes se comunicavam por rA?dios e autorizavam a sequA?ncia da carreata, que nA?o teve qualquer tipo de suporte policial nem em vias mais movimentadas ainda margeando a Cidade de Deus. A Unidade de PolA�cia Pacificadora foi mantida com agentes atrA?s dos vidros. Pelo caminho, placas da UPP estavam pichadas e avisos de traficantes a policiais pediam atenA�A?o ao monitoramento. Rafaela Silva passou por tudo isso sem ser importunada. Com a medalha de ouro no peito, abria caminho para a paz.
Fonte: Globo.com