Uma boa noite de sono vai além de acordar disposto. Enquanto dormimos, o cérebro segue ativo e participa de processos como a consolidação da memória, o processamento das experiências do dia e a regulação das emoções. Quando o descanso é curto ou interrompido, os efeitos podem aparecer na concentração, no humor e na forma de lidar com o estresse.
A relação também vale no sentido inverso: ansiedade e depressão podem atrapalhar o sono, e noites mal dormidas podem intensificar os sintomas emocionais.
Segundo a pneumologista Luciana Palombini, pesquisadora do Instituto do Sono/Afip, pessoas com ansiedade ou depressão podem ter dificuldade para pegar no sono, acordar durante a noite ou despertar antes da hora.
“É um ciclo que pode se retroalimentar. Por isso, o sono não deve ser tratado como uma questão secundária quando estamos diante de alterações de humor ou ansiedade. Avaliar a qualidade do sono faz parte de olhar para a saúde mental de forma integral”, explica.
O que acontece no cérebro
Durante o sono REM, uma das fases do descanso, há mudanças na atividade das áreas ligadas às emoções. A amígdala, associada à percepção de ameaça e ao medo, reduz a atividade, enquanto o córtex pré-frontal atua na regulação emocional. Esse mecanismo ajuda a processar experiências de forma mais equilibrada. Sem sono suficiente, ele pode falhar, o que favorece irritação, estado de alerta constante e dificuldade para relaxar.
No sono profundo, aumenta a atividade do sistema glinfático, rede que participa da eliminação de resíduos metabólicos do cérebro.
Uma noite ruim, sozinha, não faz ninguém desenvolver um transtorno mental. A preocupação está nos problemas de sono que persistem e se somam a outros fatores. A privação de sono pode deixar a pessoa mais reativa e em alerta, o que dificulta o relaxamento e ajuda a manter a insônia.
Atenção a adolescentes e idosos
Na adolescência, mudanças naturais no relógio biológico empurram os horários de dormir e acordar para mais tarde. Telas à noite, compromissos escolares e sociais e menos horas de sono contribuem para o descanso insuficiente. Estudos associam essas alterações a mais sintomas de ansiedade e depressão nessa fase.
Entre os idosos, são comuns mudanças no ritmo de sono e vigília. Pouca exposição à luz natural, menos atividades durante o dia, cochilos longos e despertares noturnos podem fragmentar o sono. Quando as alterações persistem, a recomendação é investigar as causas e observar os efeitos sobre o humor e a qualidade de vida.