Ensaio com mil pacientes testa plaquetas refrigeradas por 21 dias

Um ensaio clínico com mil pacientes submetidos a cirurgia cardíaca concluiu que plaquetas armazenadas sob refrigeração por até 21 dias tiveram desempenho equivalente ao das plaquetas mantidas em temperatura ambiente e usadas em menos de sete dias, o padrão atual. O estudo foi conduzido pela Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e publicado na revista JAMA em 17 de agosto de 2026.

Plaquetas são componentes do sangue responsáveis pela coagulação e são transfundidas em pacientes com sangramento, incluindo vítimas de trauma e pessoas em cirurgia de grande porte. Pela prática vigente, as bolsas são conservadas em temperatura ambiente e têm validade curta, o que gera descarte e escassez recorrente nos bancos de sangue.

Como o ensaio foi conduzido

A pesquisa foi um ensaio clínico adaptativo realizado em 27 centros nos Estados Unidos e na Austrália, entre dezembro de 2021 e março de 2025. Pacientes em cirurgia cardíaca foram sorteados para receber plaquetas em temperatura ambiente com menos de sete dias de estoque ou plaquetas refrigeradas. Cerca de um terço dos participantes eram crianças.

O desenho adaptativo funcionou por etapas: a cada 200 participantes incluídos, analistas independentes revisavam os resultados e, se os indicadores de segurança se mantivessem, o prazo de armazenamento das plaquetas refrigeradas era estendido de forma incremental, até chegar a 21 dias. Esse formato permite ampliar a exposição apenas depois de verificação parcial dos dados, em vez de testar o prazo máximo desde o início.

Impacto sobre estoques

Segundo os autores, considerando os dois dias necessários para processamento das bolsas, a mudança poderia estender a vida útil das plaquetas em quase quatro vezes. Nos Estados Unidos são usadas cerca de 2,5 milhões de unidades de plaquetas por ano, e entre 10% e 20% desse total é descartado por vencimento, o que representa custo estimado em 300 milhões de dólares.

“Isso é incrivelmente transformador e vai melhorar drasticamente a disponibilidade de plaquetas, ao mesmo tempo em que reduz o desperdício”, afirmou Philip Spinella, autor principal do estudo.

Os resultados se referem à população estudada, formada por pacientes de cirurgia cardíaca em centros dos Estados Unidos e da Austrália, e não a todas as situações clínicas em que plaquetas são transfundidas. A adoção da prática depende de decisão das autoridades reguladoras e dos serviços de hemoterapia de cada país, que definem normas próprias de armazenamento e validade de hemocomponentes. Não há, até a publicação desta reportagem, mudança anunciada nas regras brasileiras sobre o tema.

A comunicação da universidade não detalhou as limitações registradas pelos autores no artigo. Ensaios adaptativos como esse costumam apontar entre suas restrições o fato de o desfecho ser medido em um contexto cirúrgico específico e a necessidade de replicação em outros perfis de pacientes antes de qualquer generalização.

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