Programa de estilo de vida melhora cognição de idosos na América Latina

Um ensaio clínico randomizado conduzido em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, concluiu que um programa estruturado de mudanças no estilo de vida produziu ganho maior em testes de cognição do que orientações gerais de saúde em idosos com risco aumentado de declínio cognitivo. O estudo, chamado LatAm-FINGERS, foi apresentado na Alzheimer’s Association International Conference e publicado na revista The Lancet em 13 de julho de 2026.

Participaram 1.065 adultos de 60 a 77 anos, distribuídos em 12 centros de pesquisa na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. A idade média foi de 67,5 anos e 74,6% eram mulheres. O acompanhamento durou dois anos. O desenho foi randomizado, multicêntrico e cego para os avaliadores, e os participantes foram sorteados para um de dois grupos.

Como os dois grupos foram tratados

O grupo de intervenção estruturada reuniu 539 pessoas, que receberam exercício físico supervisionado, aconselhamento alimentar baseado na dieta MIND, treino cognitivo por computador, manejo de fatores de risco cardiovascular e 38 encontros em grupo. O grupo de comparação teve 526 participantes e recebeu orientação periódica de saúde e recomendações gerais, com quatro encontros em grupo.

Ao fim dos dois anos, o grupo estruturado apresentou melhora cerca de 55% maior em uma medida composta de cognição global do que o grupo de comparação. O maior efeito apareceu na memória episódica, com ganhos também em função executiva e velocidade de processamento. Os pesquisadores registraram que os dois grupos melhoraram nos testes; a diferença está na magnitude do ganho do grupo estruturado sobre o outro.

O que o ensaio não mediu

Um ponto central para leitura dos resultados é que a comparação não foi feita contra ausência de intervenção. O grupo de controle também recebeu orientação de saúde, de modo que os 55% expressam diferença entre duas abordagens ativas, e não entre fazer e não fazer nada.

O desfecho avaliado foi desempenho em testes cognitivos ao longo de dois anos. O ensaio não mediu diagnóstico de demência nem acompanhou os participantes por prazo suficiente para verificar se a diferença observada nos testes se traduz em menos casos da doença. A taxa de conclusão do seguimento de dois anos foi de 82%. Não houve eventos adversos graves ou mortes atribuídos à intervenção.

Os autores adaptaram o modelo original, desenvolvido na Finlândia, às culturas e aos hábitos locais, preservando os componentes centrais. Segundo a equipe, o resultado mostra viabilidade e possibilidade de escala do formato em países de renda baixa e média, populações historicamente pouco representadas em pesquisa sobre demência. É o primeiro ensaio randomizado desse tipo realizado na América Latina, região onde a carga de demência cresce em ritmo acelerado.

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