Um estudo conduzido na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, acompanhou 260 crianças durante oito anos e encontrou associação entre maior tempo de tela na infância e melhor desempenho em testes de processamento cognitivo na adolescência. O trabalho foi publicado em 17 de agosto de 2026 na revista Pediatric Exercise Science e integra o estudo PANIC, sigla em inglês para Atividade Física e Nutrição em Crianças.
Participaram 124 meninas e 136 meninos, com idade média de 15,8 anos no momento da última avaliação. Ao longo do acompanhamento, os pesquisadores mediram atividade física e comportamento sedentário por questionários e por aparelhos de monitoramento de frequência cardíaca e movimento. A função cognitiva foi avaliada com a bateria de testes CogState, usada para medir velocidade de processamento, atenção e memória de trabalho.
Resultados variaram entre meninos e meninas
Além do achado sobre telas, a análise encontrou diferenças por sexo. Entre as meninas, aumento na atividade física de intensidade leve apareceu associado a melhor memória de trabalho. Entre os meninos, a participação em atividade física orientada foi o fator ligado a melhor memória de trabalho. Menor volume de atividade física não supervisionada também apareceu associado a melhor processamento cognitivo.
“Não devemos considerar o tempo de tela apenas como prejudicial, mas buscar um equilíbrio entre atividade física e tempo de tela que promova o pensamento ativo”, afirmou a equipe responsável, ao comentar os resultados. Segundo os pesquisadores, o que a criança faz diante da tela pode ser mais relevante do que a quantidade de horas, com destaque para atividades que exijam resolução de problemas, criatividade e aprendizado.
Limitações apontadas pelos autores
Os próprios pesquisadores registraram três ressalvas. A primeira é que o estudo demonstra associações e não relação de causa e efeito: os dados foram observados ao longo do tempo, sem que os hábitos fossem atribuídos experimentalmente aos participantes. A segunda é que os sensores usados registram movimento e frequência cardíaca, mas não permitem determinar qual atividade específica estava sendo realizada em cada período medido. A terceira é que as diferenças entre meninos e meninas precisam de investigação adicional.
A equipe também aponta a necessidade de estudos de intervenção, nos quais grupos recebem orientações distintas e são comparados, para verificar se as associações encontradas se sustentam. O tamanho da amostra, de 260 participantes, é modesto para generalização, e os dados vêm de uma única coorte finlandesa, o que limita a extensão dos achados a outros contextos.
O resultado contrasta com parte da discussão pública sobre uso de telas por crianças e adolescentes. Outras pesquisas recentes com dados de sensores encontraram que dias de maior uso de smartphone coincidiram com menos passos, menos minutos de exercício moderado a vigoroso, mais tempo sentado e sono mais curto e mais tardio. O conjunto dessas evidências sugere que o efeito do tempo de tela depende do tipo de uso e do que ele desloca na rotina.

