Guias mulheres da Chapada Diamantina denunciam assédio e boicote profissional no ecoturismo

0 0

Por trás da imagem de aventura perfeita associada ao turismo na Chapada Diamantina, mulheres que atuam como guias de ecoturismo na região relatam uma rotina marcada por assédio, boicote profissional e desconfiança sobre sua capacidade técnica. Os relatos expõem uma barreira que, segundo as profissionais, torna invisível o trabalho de quem conduz visitantes por trilhas e travessias – e, em alguns casos, também atua no combate a incêndios florestais.

A guia Patrícia Ferreira afirma que existem regras informais, impostas pela própria sociedade, que buscam limitar a presença feminina no setor. Segundo ela, as agências costumam preferir guias homens para travessias longas, sob o argumento de que essas rotas exigem maior esforço físico. Ferreira também diz que, quando adota uma postura firme, é rotulada como “agressiva” ou “problemática” – e que a desigualdade se reflete diretamente na remuneração, já que as mulheres precisam provar o dobro da competência para receber a metade do pagamento.

Relato semelhante vem da guia Joana Vilarinhos, que associa a preferência das agências por homens à ideia de que liderar grandes grupos exige força física e presença imponente. Ela conta já ter presenciado turistas surpresos ao saber que uma mulher lideraria a expedição, como se a competência técnica dependesse da aparência ou da massa muscular. Vilarinhos ainda relata pressão para que denúncias de assédio no setor sejam abafadas, sob a justificativa de que o tema “assusta o turista” – argumento que ela rebate, afirmando que o problema não é a denúncia, mas a ausência de fiscalização sobre profissionais que desrespeitam normas de conduta.

Muitas outras profissionais preferem não se manifestar publicamente sobre o assunto, o que, segundo as guias ouvidas, não reflete falta de casos a relatar, mas sim medo de retaliação. Esse silêncio, dizem elas, evidencia um ambiente de pressão em que operadoras e colegas de profissão acabam funcionando como uma engrenagem de controle sobre quem ousa questionar a estrutura vigente.

A falta de segurança em áreas remotas é outro desafio apontado pela guia Izabelle Brandão. Sem um protocolo formal de proteção coletiva, ela afirma que a estratégia mais eficaz encontrada pelo grupo tem sido registrar em vídeo situações de invasão ou assédio, como forma de garantir provas em casos de comportamento inadequado. Brandão relata ainda ter sua autoridade técnica questionada mesmo em atividades de combate a incêndios – área em que atua desde 2012 – inclusive por outras mulheres, que preferem recorrer a brigadas masculinas.

Apesar dos obstáculos e do rótulo de “problemáticas” atribuído a quem não se submete a essas normas informais, as guias seguem atuando na Chapada Diamantina. O trabalho delas combina a condução de visitantes com o enfrentamento diário de um machismo estrutural, revelando um contraste entre a beleza das trilhas e a realidade de quem precisa, antes de tudo, conquistar seu próprio espaço no mercado.

Get real time updates directly on you device, subscribe now.

Comentários
Loading...