Salvador é a capital brasileira onde o consumo de bebida alcoólica é maior

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Toda semana, um brinde. Foi essa a rotina de pelo menos 4 entre cada 10 adultos soteropolitanos: 40,2% da população adulta, ou 919 mil pessoas beberam ao menos uma vez por semana em 2019. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira. A porcentagem coloca Salvador como a capital onde o consumo recreativo do álcool é maior no país.  Empatada com Salvador está Florianópolis  (40,2%), seguida de Porto Alegre (39,4%).

 Olhando para o estado, o número é um pouco menor. A Bahia fica na oitava posição, com 26,7% (42 milhões) dos adultos afirmando consumir bebida alcoólica pelo menos uma vez por semana. Entre os estados, Rio Grande do Sul (34,0%), Mato Grosso do Sul (31,3%) e São Paulo (31,0%) lideram, enquanto as menores proporções de 2019 estavam no Acre (12,6%) e Amazonas (14,4%).

O engenheiro civil Felipe Duarte, 26, é um dos que se enquadram no perfil de quem consome álcool com a frequência semanal. “Eu comecei a beber aos 18 anos, mas sempre era em momentos de festa e com a intenção de me soltar. Hoje, prefiro uma cerveja gelada ou um vinho, mas sempre com companhia. Acho que, conforme fui adquirindo responsabilidade, passei também a gostar do momento de estar numa mesa com amigos bebendo pra fugir da rotina”, comenta.

Duarte diz, no entanto, que neste ano, a pandemia acabou alterando os hábitos de consumo e ele deixou de fazer parte do grupo que bebe com constância: “Com o isolamento, meu consumo foi a quase zero, porque não gosto de beber sozinho ou à distância. Por conta da dieta e do trabalho, hoje eu não bebo durante a semana, até porque a bebida atrapalha o rendimento  de trabalho e afeta também na dieta”.

Antes do isolamento, Felipe fazia parte de 51% de homens soteropolitanos que  bebiam pelo menos uma vez por semana. Apesar da maioria masculina, 31,8% das soteropolitanas também afirmaram manter o mesmo hábito de consumo semanal.  Em Salvador, esse número é maior do que o obtido quando considerado o estado inteiro ou mesmo o país. 

Na Bahia, a pesquisa apontou que 36,6% dos homens e 17,9% das mulheres disseram ter o hábito semanal. No Brasil, como um todo, as proporções foram, respectivamente, de 37,1% e 17,0%. Entre as soteropolitanas está a estudante Vitória Croda, 23, que  consome vinho ou cerveja toda semana para relaxar: “Aqui em casa é comum no fim de semana fazemos jantares ou almoços de família e todo mundo bebe. Cheguei a fazer assinatura de vinho para não precisar sair pra comprar durante o isolamento, e também pela economia”.

Cuidados
Mesmo usando a bebida como válvula de relaxamento, Vitória diz tomar alguns cuidados na hora do consumo: “A gente acha que não, mas álcool é uma droga tanto quanto as proibidas. Então, evito beber em dias de semana, evitar beber quando estou me sentindo triste para que isso não acabe dando uma sensação de que a bebida vai te salvar de alguma forma”.

Os cuidados como os praticados pela jovem serviram para não incluir Vitória em  outra estatística: a daqueles que acabaram abusando no consumo. Em 2019, 28,0% da população adulta de Salvador (640 mil) relataram ter ingerido cinco ou mais doses de bebida alcoólica, em uma única ocasião, nos 30 dias anteriores à entrevista da PNS. 

Foi esse dado que deixou Salvador com o primeiro lugar do ranking preocupante. Foi o segundo maior percentual entre a capitais, praticamente igual ao de Aracaju (28,1%), que liderava nesse indicador. A psiquiatra Sandra Peu explica que não se deve banalizar os efeitos do álcool: “O alcoolismo é uma doença multifatorial e a banalização das consequências negativas do uso de etílicos é um fator social importante para aumento da prevalência desta doença. É absolutamente comum o uso de álcool em comemorações, inclusive infantis, e a associação de bebidas alcoólicas com momentos alegres. Neste contexto, a identificação de prejuízos pode ser tardia e o tratamento  menosprezado”.

Ela chama atenção para a necessidade de entender que o consumo de álcool não é apenas preocupante quando atinge o nível de alcoolismo:“Mesmo sem haver dependência química, pessoas podem sofrer por agravos físicos decorrentes do uso contínuo ou volumoso de bebidas. O uso de álcool, mesmo sem haver alcoolismo, também está relacionado à maior frequência de suicídio e de violência doméstica”. 

Saúde ruim 
Além do alto consumo de álcool, a Bahia foi também um dos estados em que a avaliação dos entrevistados pela pesquisa sobre a própria saúde foi a pior. No ranking, os baianos ficaram no segundo lugar entre os que achavam sua saúde ruim em comparação com o resto do país:  54,2% ou 6,043 milhões de pessoas maiores de 18 anos, o que deixou o estado atrás apenas do Maranhão (52%). Em geral, a proporção de homens satisfeitos com a própria saúde foi maior que a de mulheres. Na Bahia, 59,7% dos homens avaliaram como boa ou muito boa, e as mulheres,  49,3%. 

Em Salvador, a diferença por sexo foi um pouco menor: 67,8% dos homens consideravam a saúde boa ou muito boa, frente a 62,5% das mulheres. No Brasil, as taxas foram de 70,4% para homens e 62,3% para mulheres. Uma das razões que pode justificar essa percepção é a presença comum de doenças crônicas. Tanto na Bahia quanto em Salvador, em 2019, pouco mais da metade dos adultos tinham diagnóstico de ao menos uma doença  crônica não transmissível: problemas de coluna, hipertensão arterial e colesterol alto. 

Depoimento pessoal 
O CORREIO falou com Lucas Matos Vinhaes, 27 anos, um cozinheiro profissional e personal chef que se prepara para se tornar um sommelier de cervejas. Vinhaes fala sobre como a bebida se tornou um elemento importante na sua vida profissional.

Comecei a beber com 17 anos, em festinhas de escola – desculpa a ilegalidade, mas vou ser honesto – e bebia sempre vodka com suco ou refrigerante e bebidas mistas. Nessa época eu bebia para socializar e pelo efeito do álcool, e vez ou outra eu exagerava e passava mal. Com o passar do tempo e a chegada de responsabilidades, eu aprendi a beber com mais controle e comecei beber cervejas e drinks, aprendendo a apreciar as bebidas pelo sabor ao invés do efeito alcoólico. Hoje eu desenvolvi apreço maior por cervejas artesanais e importadas, pretendendo inclusive trabalhar no ramo, mas não deixei de tomar alguns drinks. Posso dizer que bebo por ter desenvolvido gosto pelo sabor das bebidas, mas é claro que o efeito inebriante – consciente e sem exageros – é agradável, principalmente em situações de socialização.

Nas cervejas, comecei pelas populares da grande indústria, mas não gostava muito do que bebia. Desde 2013 eu vou sempre atrás de cervejas diferentes do comum, e em 2018 descobri que existe um universo muito grande de cervejas. Passei a optar por artesanais, principalmente locais (gosto muito do terroir, do consumo local) e quando sobrava dinheiro, comprava uma ou outra importada. No ano passado fiz uma oficina de produção caseira de cerveja e descobri que uma instituição de ensino que ministra cursos de cerveja por todo o país ia ter um curso de Sommelier aqui em Salvador nesse ano. O curso já teria terminado se não fosse a pandemia, mas foi adiado até conseguir condições seguras para iniciar, o que ocorreu nesse mês de novembro. 

Lucas Vinhaes estuda para se tornar sommelier de cervejas (Foto: Arquivo pessoal)

Já sou cozinheiro, então trabalhar com cerveja não é uma coisa distante. Gosto muito de trabalhar com montagem de menus, e harmonizar com cervejas seria uma experiência incrível, tanto pra mim quanto para um possível cliente. Por esse motivo, e também por gostar muito de cerveja, eu escolhi estudar para me tornar um sommelier.

No meu dia a dia, eu uso especificamente cerveja como um complemento a uma ou duas refeições semanais minhas, porque gosto de fazer harmonizações entre comida e cerveja. E além disso, por estudar cerveja, estou sempre experimentando e avaliando novos rótulos de diferentes estilos. Isso não quer dizer que eu deixe de beber para me divertir E me relaxar. Devo admitir que ficar em quarentena dentro de casa aumentou consideravelmente meu consumo de álcool nos primeiros meses de pandemia, e foi diminuindo desde então. Eu sempre preferi beber em casa para evitar gastos com transporte, mas estar restrito a beber somente em casa me fez beber em maior quantidade.

Fonte: Correio 24h

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